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A criança entre 9 e 10 anos de idade

evy 9 anos

Minha filha mais velha sempre foi uma menina alegre e tranquila. Tristeza, definitivamente, não era a praia dela. Até que um dia, perto de completar 9 anos, chegou em casa chorando. Mas chorando muuuito! Disse que tinha se desentendido com  uma amiga e que tinham rompido a amizade. Chorou boa parte da noite, de verdade. Eu a acolhi, conversei com ela até que adormeceu com os olhos inchados de tanto chorar. Pouco tempo depois, lá estava ela aos prantos novamente:

– A Duda (a  irmã) não vai mais querer brincar comigo, eu briguei com ela.

Lágrimas e mais lágrimas.

A levei ao pediatra para uma consulta de rotina, que comentou que ela estava com carinha triste e começou a fazer perguntas:

– Como tá a escola?

– Mais ou menos.

– Como estão os amigos?

– Mais ou menos.

Tudo estava mais ou menos na vida dela! Estranho, esse não era o perfil dela.

Foi aí que entendi que ela estava passando pelo RUBICÃO!!!

Geralmente os pais ficam bastante preocupados com a chegada da adolescência (a partir dos 12 anos). Lêem a respeito e ficam imaginando como será essa fase. No entanto, acabam não percebendo o quão importante é o tempo que antecede a puberdade, exatamente entre os 9 e 10 anos de idade.

Vamos fazer um exercício de empatia, nos colocar no lugar das crianças. Para que elas passem por essa fase, elas precisam antes mergulhar pra dentro de si, visitar seu mundo interno, para depois ressurgir com um novo brilho, com um “colorido” diferente. Esta é uma fase de transição. Lembram da primeira vez que falamos do Eu, no texto “o que acontece com a criança entre os 2 anos e 3 anos de idade?” (http://falandodainfancia.com.br/2016/09/08/208/) Bem, agora esse Eu é vivenciado intensamente pela criança no âmbito dos sentimentos.

Percebemos uma mudança física com o crescimento do tórax. É nessa região que ficam órgãos importantes como o coração e os pulmões. Vamos atentar à fisiologia do pulmão. É nesse órgão que é feita a troca, entra oxigênio e sai gás carbônico. Agora falando no campo dos sentimentos, é aqui que a criança faz a troca com o mundo externo: recebe do mundo (inspiração), elabora internamente e devolve (expiração).

Nessa fase, a criança faz esse movimento sozinha, sem a ajuda do adulto. Lembrem-se que quando ainda é bem pequena, a criança vive a fase da imitação e que percebe o mundo através dos pais, agora essa interferência não ocorre mais.

O que ocorre é  uma preparação pra adolescência que será uma fase de turbulência e muita confusão. Quando seu filho (a) estiver vivendo isso, entenda como um pedido de “colo”, afinal acaba sendo um colo para receber a próxima fase que virá.

Ele (a) está se preparando para enfrentar o desconhecido. É um momento de mudança na vida da criança, ela vai deixar para trás a infância imaginativa e cheia de fantasias, para viver uma fase de brincadeiras mais concretas e com muita movimentação.

Algumas crianças sentem esta vivência mais intensamente, outras menos, mas em geral elas ficam mais caladas, mais melancólicas ou até mesmo mais agressivas. Outras características que também aparecem são algumas dores físicas como a dor de cabeça e dor de barriga e em volta dos olhos surge um arroxeado – olheiras.

Claro que temos que ficar atentos a outras situações externas a essa fase. Perceber se não há outra questão a ser olhada na escola e no ambiente familiar.

Precisamos cuidar dessa fase com muito carinho e respeito como sempre.

Já passei com a mais velha, que hoje está com 12 anos e agora, cá estou passando por tudo novamente. Só que com minha caçula o Rubicão chegou um pouco antes, aos 8 anos e meio. É incrível ver minhas filhas mergulhando nesse tempo de introspecção. A mais velha já viveu e a caçula ainda vive uma transformação, fundamental para o desenvolvimento de ambas. Quando ultrapassam essa fase, estão fortalecidas com outra vitalidade no olhar.

 Não é à toa que a Pedagogia Waldorf propõe um desafio às crianças aos 9 anos. No currículo escolar do terceiro ano, os alunos constroem uma casa em miniatura. Ela pode ser de madeira, barro, isopor. Deve ser feita manualmente assim como os móveis e demais utensílios. Eu utilizo esse recurso também no consultório para ajudar as crianças a passarem por este momento. O que acontece simbolicamente é que o Eu desta criança está encontrando seu caminho e construir essa casa com a ajuda dos pais dá a ela o suporte de que precisa.

Além da construção da casa, utilizo também um jogo para auxiliar as crianças nessa fase: o Ludo. O jogo é mais rápido que a confecção de uma casa, permite que seja iniciado e terminado durante uma sessão, e também é muito potente. A criança percorre o caminho no tabuleiro até chegar a sua “casa” no jogo.

Às vezes as crianças nos surpreendem e elas mesmas nos sugerem algo. O caminho que a minha filha caçula encontrou para enfrentar esse momento de transição foi construir um carro, com a ajuda do pai. Primeiro eles fizeram um de papelão que ficou incrível. Agora trabalham com afinco na construção de um de madeira.

Escrevendo esse texto entendi perfeitamente a escolha da minha mais nova. A forma que ela encontrou pra fazer esse caminho dos 9 anos foi montar um carro. Carro que vai ajudá-la literalmente a passar para o outro lado da ponte. A percorrer esse caminho da infância para a adolescência.


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