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Coisa de menino e coisa de menina

meninos e meninas

Uma menina gostar de azul tudo bem! Mas e um menino gostar de rosa?

Conheço muitos pais que vão responder:

– Ah, não… Rosa meu filho não vai vestir!

Assim como já ouvi:

– Essa brincadeira são dos meninos, você é uma mocinha! Não pode brincar disso!

Aí eu pergunto. Por quê?

Para a criança o rosa ou azul, assim como o verde e o vermelho não significam nada além de cores. Uma é usada pra pintar o céu, outra uma árvore, uma flor, uma porta… Quando criança diz que rosa é de menina e azul é de menino, pode ter certeza que o discurso não é dela. Não foi a criança que chegou a essa conclusão. Ela provavelmente ouviu isso de alguém e está reproduzindo.

Muitos pais quando vêem os filhos brincando com boneca ou quando pegam as meninas brincando de carrinho, se sentem incomodados. Entram na frente pra atrapalhar a brincadeira, fazem o que podem para acabar com a diversão que eles acreditam não ser saudável para o seu filho ou sua filha.

No consultório já vi isso algumas vezes. A cena quase sempre segue o mesmo roteiro: um menino pega uma boneca e começa a ninar, balançar. Rapidinho vem o pai ou mãe dizendo:

– Menino larga isso, vai brincar com outra coisa.

Quando a criança é pequena ela não faz essa separação de gênero (masculino e feminino), pra ela não existe diferença. E tem que ser assim mesmo. A menina quanto brinca de carrinho, por exemplo, está imitando a mãe ou o pai. Quando se diverte com a ideia de super herói que defende a cidade ou a humanidade toda,  acaba trabalhando internamente a questão da proteção, do pai protetor. Ela está imitando a realidade dela. Os meninos quando estão brincando de boneca estão reproduzido o cuidado que a mãe tem com ele, cuidar, trocar a roupa, ser carinhoso, estão aprendendo a cuidar do outro. Veja que exercício lindo.

Ouvi uma história que achei muito interessante. Um casal que tem dois meninos. Na casa deles, um festival de carrinhos, dinossauros, peças de montar, ferramentas de madeira. A mãe disse a uma amiga que pensava em comprar ou mesmo construir para as crianças um fogão de madeira pra aumentar o reportório de brincadeiras. Já que a mãe e o pai vão pra cozinham porque não permitir que os meninos também se interessem pelo ambiente. Não são essas brincadeiras que vão determinar lá na frente a sua opção sexual da criança.

As minhas duas meninas são bem diferentes. A caçula sempre gostou de bonecas. A mais velha, agora com 12 anos, até brincava, mas preferia as brincadeiras com bola, mais as que tinham movimento. Um dia ela me contou porque gostava mais de brincar com os meninos:

– Mãe, é que as brincadeiras deles são mais divertidas!

Vou dizer pra não brincar, que ela não pode? Claro que não!

Não sei se você já viu uma sala de jardim de infância Waldorf. Tem fogão, panelas, panos, bonecas, carrinhos e todos brincam. Um dia, todos cuidam do jardim; no outro, meninos e meninas dão um “brilho” na sala, limpando com panos as cadeiras, a mesa. A quarta-feira é dia de painço (servido no lanche em algumas escolas). É o dia preferido de muitas crianças, elas ajudam a preparar os acompanhamentos: salsinha, cebolinha, cenoura, azeitona e queijo. Não tem o que é de menino e o que é de menina, a brincadeira de preparar o alimento envolve todos.

Meu convite é para que sejamos mais leves nessa questão. Lembrar que não tem coisa de menino e coisa de menina. Tem coisa de criança. Que tal deixá-las brincar livremente?

 


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Separação dos Pais – Um assunto delicado

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A separação dos pais é sempre um assunto difícil e delicado para toda a família. Mesmo nos casos em que ela acontece de forma amigável e, que o diálogo permanece, leva-se um tempo para as crianças se adaptarem ao novo modelo familiar.

Agora, imaginem quando o término dessa relação é algo turbulento e sem possibilidade de conversa entre os pais?

O mundo da criança que deveria ser colorido, torna-se cinzento, como se ela estivesse no meio de uma grande tempestade, ou seja, aquilo que poderia ser conduzido de uma maneira um pouco mais fácil vira um sofrimento além do que já existe.

Quando existem essas discussões, brigas e uma atmosfera “pesada” entre os pais, a criança se percebe no meio de tudo isso e muitas vezes ela sente-se responsável pela situação e na obrigação  de ter que cuidar destes adultos, ficam confusas e inseguras,  preocupadas em como se comportar e, no que vai falar perante o pai ou a mãe para não chatear um ou outro.

Existe uma maneira para se evitar esta situação! Sabemos que estes pais também estão machucados e magoados e que precisam de acolhimento, porém, existe algo maior que tudo isso: O AMOR QUE SENTEM PELO FILHO! E, por este motivo, precisam entender alguns pontos importantes:

O que aconteceu foi a separação do casal (homem e mulher), não a separação Pai e Mãe;

Os pais são as pessoas que os filhos mais amam nessa vida e, vão estar presentes nos momentos mais importantes dessa criança ou adolescente: nas decisões mais importantes, nas comemorações, nos momentos de alegria e tristeza;

Por estas razões e por outras que talvez tenha esquecido de colocar aqui, estes pais precisam minimamente se respeitar, colocar acima de tudo o amor que tem por este filho. Preservar um diálogo, para no mínimo entrarem num consenso sobre as coisas básicas que vão nortear a vida desta criança, como: limites, rotina, educação, orientações e etc. Não é fácil, mas, é necessário fazer um esforço para alinharem os cuidados com esta criança.

A criança que vivencia e percebe este respeito e esta possibilidade de conversa entre os pais, tende a se adaptar melhor à nova realidade, ela fica mais segura e feliz por sentir que é cuidada e amada por dois adultos que estão dispostos a percorrer este caminho da vida ao lado dela. Sim, mais uma vez repito: é difícil! Mas completamente possível quando começamos a olhar que esta criança depende do  amor e proteção do Pai e da Mãe  para que o colorido da sua infância permaneça.

 


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Nesta semana postei um artigo sobre a criança que está entre seus 9 e 10 anos de idade, algumas características comuns que acontecem nessa fase, o tal do rubicão, as crises, alguns comportamentos físicos que aparecem. (http://falandodainfancia.com.br/2017/03/02/a-crianca-entre-9-e-10-anos-de-idade/). Uma querida seguidora da página, fez um comentário bem interessante e importante sobre seu filho de 11 anos que está com um olhar bem crítico sobre as atitudes dos pais e sobre as situações.

Acabei não escrevendo sobre este aspecto, também importante,  para que o texto não ficasse muito longo e, para que olhássemos de uma forma mais geral sobre essa fase.

Porém, é fundamental conversarmos sobre esta característica presente nesta idade, vamos lá?

Nos primeiros sete anos da criança (podendo se estender até uns 8 anos ou antecipar para 6) ela vive em uma atmosfera de sonho, em que fantasia e imagina o tempo todo em suas brincadeiras. Ela imita e espelha os adultos que estão a sua volta, recebe o mundo através dos olhos da mãe. Esta situação de imitação e espelhamento, faz com que ela não se sinta “tão sozinha” no mundo, embora ela já tenha tido um início desta sensação de separação  lá nos 2 anos / 3 anos de idade.

Quando a criança adentra nesses 9 e 10 anos de idade, ela vivencia o seu eu mais intensamente, no âmbito dos sentimentos, acontece uma separação mais intensa entre ela e o mundo externo, a imitação e o espelhamento são deixados para trás e, ela começa a receber o mundo diretamente, sem mais esta “ponte” que seria a mãe.

Tudo isso, faz com que a criança tenha um Acordar para o mundo, o que faz aumentar a tendência a ficar mais crítica com as situações que a rodeia, despertando um questionamento interior e inconsciente, sobre as atitudes e comportamentos dos adultos a sua volta.

As regras precisam ser claras, não cabe ficar tentando “trapacear”, quando os pais dizem algo tem que tomar muito cuidado para não contradizer, pois eles estão mais despertos para isto e irão questionar. Dentro deles vive o sentimento de que os adultos sabem de tudo e que seus comportamentos devem sempre ser seguidos, agora, com este acordar eles vivenciam internamente este questionamento e estarão mais atentos para comprovar se isto é verdadeiro.

– Mas mãe, você não tinha dito que mentir era feio? Por que pediu para que eu dissesse ao telefone que você não estava, sendo que você está aqui?

– Mas pai, você não vive dizendo que o cigarro faz mal? Por que está fumando?

Estes são exemplos mais clássicos, mas com certeza já devem ter vivenciado outros.

A partir dessa idade, algo muito importante e bonito dentro do processo de crescimento da criança, acontece: o Acordar! Junto com ele vem esse posicionamento essencial para se colocar no mundo e, se separarmos a palavra acordar, teremos: A – Cor – dar: uma cor surge e se fortalece, que é o seu temperamento! A sua personalidade (que já vinha aos poucos) diante de lidar com as situações do mundo, agora ganha força. A sua cor, que podemos falar mais detalhadamente em outro artigo no futuro.

 


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A criança entre 9 e 10 anos de idade

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Minha filha mais velha sempre foi uma menina alegre e tranquila. Tristeza, definitivamente, não era a praia dela. Até que um dia, perto de completar 9 anos, chegou em casa chorando. Mas chorando muuuito! Disse que tinha se desentendido com  uma amiga e que tinham rompido a amizade. Chorou boa parte da noite, de verdade. Eu a acolhi, conversei com ela até que adormeceu com os olhos inchados de tanto chorar. Pouco tempo depois, lá estava ela aos prantos novamente:

– A Duda (a  irmã) não vai mais querer brincar comigo, eu briguei com ela.

Lágrimas e mais lágrimas.

A levei ao pediatra para uma consulta de rotina, que comentou que ela estava com carinha triste e começou a fazer perguntas:

– Como tá a escola?

– Mais ou menos.

– Como estão os amigos?

– Mais ou menos.

Tudo estava mais ou menos na vida dela! Estranho, esse não era o perfil dela.

Foi aí que entendi que ela estava passando pelo RUBICÃO!!!

Geralmente os pais ficam bastante preocupados com a chegada da adolescência (a partir dos 12 anos). Lêem a respeito e ficam imaginando como será essa fase. No entanto, acabam não percebendo o quão importante é o tempo que antecede a puberdade, exatamente entre os 9 e 10 anos de idade.

Vamos fazer um exercício de empatia, nos colocar no lugar das crianças. Para que elas passem por essa fase, elas precisam antes mergulhar pra dentro de si, visitar seu mundo interno, para depois ressurgir com um novo brilho, com um “colorido” diferente. Esta é uma fase de transição. Lembram da primeira vez que falamos do Eu, no texto “o que acontece com a criança entre os 2 anos e 3 anos de idade?” (http://falandodainfancia.com.br/2016/09/08/208/) Bem, agora esse Eu é vivenciado intensamente pela criança no âmbito dos sentimentos.

Percebemos uma mudança física com o crescimento do tórax. É nessa região que ficam órgãos importantes como o coração e os pulmões. Vamos atentar à fisiologia do pulmão. É nesse órgão que é feita a troca, entra oxigênio e sai gás carbônico. Agora falando no campo dos sentimentos, é aqui que a criança faz a troca com o mundo externo: recebe do mundo (inspiração), elabora internamente e devolve (expiração).

Nessa fase, a criança faz esse movimento sozinha, sem a ajuda do adulto. Lembrem-se que quando ainda é bem pequena, a criança vive a fase da imitação e que percebe o mundo através dos pais, agora essa interferência não ocorre mais.

O que ocorre é  uma preparação pra adolescência que será uma fase de turbulência e muita confusão. Quando seu filho (a) estiver vivendo isso, entenda como um pedido de “colo”, afinal acaba sendo um colo para receber a próxima fase que virá.

Ele (a) está se preparando para enfrentar o desconhecido. É um momento de mudança na vida da criança, ela vai deixar para trás a infância imaginativa e cheia de fantasias, para viver uma fase de brincadeiras mais concretas e com muita movimentação.

Algumas crianças sentem esta vivência mais intensamente, outras menos, mas em geral elas ficam mais caladas, mais melancólicas ou até mesmo mais agressivas. Outras características que também aparecem são algumas dores físicas como a dor de cabeça e dor de barriga e em volta dos olhos surge um arroxeado – olheiras.

Claro que temos que ficar atentos a outras situações externas a essa fase. Perceber se não há outra questão a ser olhada na escola e no ambiente familiar.

Precisamos cuidar dessa fase com muito carinho e respeito como sempre.

Já passei com a mais velha, que hoje está com 12 anos e agora, cá estou passando por tudo novamente. Só que com minha caçula o Rubicão chegou um pouco antes, aos 8 anos e meio. É incrível ver minhas filhas mergulhando nesse tempo de introspecção. A mais velha já viveu e a caçula ainda vive uma transformação, fundamental para o desenvolvimento de ambas. Quando ultrapassam essa fase, estão fortalecidas com outra vitalidade no olhar.

 Não é à toa que a Pedagogia Waldorf propõe um desafio às crianças aos 9 anos. No currículo escolar do terceiro ano, os alunos constroem uma casa em miniatura. Ela pode ser de madeira, barro, isopor. Deve ser feita manualmente assim como os móveis e demais utensílios. Eu utilizo esse recurso também no consultório para ajudar as crianças a passarem por este momento. O que acontece simbolicamente é que o Eu desta criança está encontrando seu caminho e construir essa casa com a ajuda dos pais dá a ela o suporte de que precisa.

Além da construção da casa, utilizo também um jogo para auxiliar as crianças nessa fase: o Ludo. O jogo é mais rápido que a confecção de uma casa, permite que seja iniciado e terminado durante uma sessão, e também é muito potente. A criança percorre o caminho no tabuleiro até chegar a sua “casa” no jogo.

Às vezes as crianças nos surpreendem e elas mesmas nos sugerem algo. O caminho que a minha filha caçula encontrou para enfrentar esse momento de transição foi construir um carro, com a ajuda do pai. Primeiro eles fizeram um de papelão que ficou incrível. Agora trabalham com afinco na construção de um de madeira.

Escrevendo esse texto entendi perfeitamente a escolha da minha mais nova. A forma que ela encontrou pra fazer esse caminho dos 9 anos foi montar um carro. Carro que vai ajudá-la literalmente a passar para o outro lado da ponte. A percorrer esse caminho da infância para a adolescência.