criana-agressiva

Ruiva, cabelo encaracolado e cheia de personalidade. A mãe descreve assim a filha de menos de três anos. A pequena é independente, quer escolher a roupa (não importa se o termômetro marca 17 graus, ela quer usar o vestidinho de alças), se veste sozinha, escala a pia para pegar uma fruta. A vida segue sem turbulência quando lhe é permitido fazer tudo o que deseja. Mas quando a pequena se depara com um “NÃO” o tempo fecha e muitas vezes é com um tapa que ela comunica que não gostou do limite. Você conhece crianças assim?

É sempre motivo de preocupação de mães e pais quando um filho bate nos amigos, nos pais,  quando morde. Muitos pensam que essa atitude é uma característica da criança, que ela está se tornando agressiva, está mudando o caráter, está muito bravo, tendo muitas crises. Isso, na verdade, faz parte do processo de crescimento e desenvolvimento da criança. Entre os dois e três anos de idade começa a se manifestar pela primeira vez o Eu dessa criança, fase em que ela começa a se colocar no mundo, quer ganhar seu espaço, muitas vezes se coloca dessa forma, com agressividade.

Agora vamos voltar no exemplo lá do início do texto. Veja o exemplo: a menina não bateu gratuitamente, ela disparou um tapa assim que foi confrontada, assim que recebeu uma negativa. Aqui está um detalhe importante que os pais precisam atentar. O primeiro passo na direção de entender esse comportamento (o que não significa ser complacente) é observar o que antecedeu o ato de bater, o que veio antes dessa agressividade infantil. Muitas vezes foi um “não”: você não pode usar essa roupa, porque está frio; esse objeto é de vidro, você não pode pegar; bala, agora não. A criança fica frustrada, com raiva. Nós, adultos, também sentimos frustração e raiva muitas vezes, com a criança não é diferente. É muito importante lembrar que a raiva é um sentimento que surge em determinado momento, isso não significa que ela seja agressiva o tempo todo. É fundamental evitar esse rótulo, porque caso contrário a criança começa a internalizar isso e acreditar que realmente é agressiva.

Quando uma criança inicia sua caminhada aqui na Terra, ela conta conosco para que sejamos seus guardiões, que caminhemos juntos. Dependendo da idade, estaremos bem perto. Com o passar dos anos, ao lado, e mais adiante, um pouco atrás. Mas sempre deveremos estar por perto.

A Antroposofia lembra que são os filhos que nos escolhem, eles confiam que saberemos guiá-los. Somos adultos, com Eu forte, para dar direção para esse Euzinho que está chegando de forma meio “torta”, meio descontrolada. Se eu não estiver certo de mim como pai ou mãe, se não estiver com meu Eu no lugar, reto, eu não conseguirei ajudar meu filho. A criança vai ficar perdida, inconscientemente vai se perguntar:  onde está meu eixo, cadê minha direção? Se os pais estão perdidos, assim também ficará a criança. A criança está em processo de aprendizagem e ouvir “nãos” faz parte do jogo.

Quando acontece esse ataque de fúria dos pequenos, eles ficam muito bravos e batem, mordem, jogam o que tem pela frente no chão ou contra quem está na sua frente, há pais que perdem o controle também, começam a gritar. Realmente é ruim ver seu filho avançando contra você, mas pior ainda é não saber o que fazer nessa situação. O que temos que fazer nesses momentos em primeiro lugar é manter a calma. É claro que temos o direito de ficar nervosos, mas temos o dever de dizer a nós mesmo: “Alto lá! Preciso me acalmar, dar um passo pra trás”. Essa criança está precisando nesse momento é de direção, que mostremos a ela um outro caminho e para que a gente consiga fazer isso temos que estar no nosso eixo. Mas de que forma devo agir, você pode estar se perguntando. No momento do tapa, quando acontece o tapa principalmente nos pais, o adulto tem que segurar com calma, mas com firmeza a mão da criança e abaixá-la, com muito amor, respeito e cuidado pra não machucar. Nesse momento, peça para que ele olhe nos seus olhos, se conecte com ele e diga que ele não pode bater, que essa não é a forma de conseguir as coisas que quer. Quando são crianças menores, a conversa tem que ser curta e objetiva, sem tantas argumentações. Para crianças maiores, a partir dos oito, nove anos pode-se ter um diálogo maior, uma conversa mais longa. Mas antes é fundamental segurar a mão e dizer que não gostou do que ele (a) fez. A conversa pode até ficar pra depois, à noite por exemplo, num momento mais caloroso. Nesse momento, diga: “você lembra do que você fez, me bateu ou bateu no seu amigo?” Faça uma retrospectiva do que aconteceu, isso vai ajudar a criança a refazer a situação mentalmente.

Vale lembrar que diante desse momento de fúria, os pais precisam ser firmes e não voltar atrás no “não” que foi a raiz de toda a explosão. Como se trata de um processo de aprendizagem, é um presente que damos à criança quando nos mantemos firme a decisão. É uma forma de ensinar como lidar com a frustração. Você deve deixar claro pra criança que ela tem o direito de ficar brava, mas não pode machucar o outro ou  jogar as coisas, quebrar as coisas, bater nas outras pessoas. Ela vai aprender isso com o tempo. E com certeza isso vai ajudá-la para que não se torne um adulto que extravase sua raiva descontando em outras pessoas por aí.

Agora que já entendemos que isso é natural de certas idades e já temos ferramentas para agir quando isso acontecer vamos observar outro cenário. A agressividade também é uma resposta, uma reação, a algo que esteja desconfortável na vida dessa criança. Às vezes, a criança está respondendo de forma inconsciente a algo que não está bom em casa (pode ser que ele tenha pais que gritem muito, que resolvem as coisas de uma forma mais agressiva), pode ser que o problema esteja na escola ou em outro ambiente muito frequentado pela criança. É importante conversar com o professor, firmar uma parceria. Esse comportamento pode ser um pedido de ajuda, pode ser que a criança esteja enfrentando algo muito desconfortável pra ela e peça dessa forma socorro. Nesses casos avalie a situação, converse com a criança, vá fundo.

Afinal é você o guardião do seu filho!