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Tic tac, tic tac, tic tac.

Provavelmente você não tem um relógio de ponteiros por perto, mas só de codificar essas letras e transformá-las em som você reconheceu esse ritmo. E só reconheceu porque já ouviu tantas e tantas vezes que esse som passou a viver dentro de você.

O ritmo na vida de uma criança é a mesma coisa. Ele se instala a partir do momento que há uma repetição. Acordar mais ou menos na mesma hora, trocar de roupa, ir ao banheiro, arrumar a cama, tomar o café, escovar os dentes e sair de casa. O que para nós pode ser uma completa monotonia sem graça, para as crianças é segurança, é calma. Essa constância é fundamental pra elas.

Na semana passada conversamos sobre a impaciência. Bem, hoje gostaria de trazer um assunto que pode nos ajudar muito a lidar com essa questão: o ritmo, esse tic tac aí do início.

Se observarmos a nossa volta, principalmente na natureza, podemos ver que tudo tem um ritmo: dia e noite, dias da semana, estações do ano, as frutas que nascem em determinadas épocas… Podemos fazer uma analogia também com o ritmo da nossa respiração. Um momento se está mais pra dentro (inspiração), brincando dentro de casa, tomando um lanche, a criança fica mais quietinha. Em outro momento (expiração), ela brinca no parque, corre, brincando livre dentro de casa mesmo…

Quando tudo isso acontece de forma repetida traz a sensação de segurança, de confiança, pois já sabemos o que vai acontecer a seguir. Com a criança não é diferente e temos que ter isso ainda mais presente, pois ela está em processo de desenvolvimento e de formação. No caso dos pequenos, além de se sentirem mais seguros e confiantes, esse ritmo traz também saúde física e psíquica. Ele também é um aliado importante para ajudar a combater um mal que tem tirado muitas de nossas crianças do prumo, a ansiedade. Hoje é comum crianças chegarem ao consultório com essa queixa. Quando não existe esse respeito, esse cuidado para acordar, para fazer as refeições, para dormir a criança fica confusa, perdida e demonstra isso em seus comportamentos.

No livro A Arte de Educar em Família – os desafios de ser pai e mãe nos dias de hoje – Sandra Stirbulov e Rosemeire Laviano fazem uma reflexão importante: “Quando se fala em ritmo, frequentemente vem à cabeça noções de rotina… Ritmo e rotina são diferentes, mas ambos são importantes, complementares e proporcionados pela repetição. Vamos fazer uma analogia com o compasso e a melodia de uma música: enquanto a rotina ordena, dá o compasso, o ritmo traz uma respiração, é a melodia.”

É importante atentar para o fato de que a criança não cria esses ritmos sozinha, ela conta com o nosso empenho para ajudá-la a estabelecer isso desde o seu nascimento.

Vamos pensar primeiro na rotina básica, higiene, alimentação, sono… Quando determinamos horários para que essas coisas aconteçam e repetimos isso diariamente, a criança internaliza. Significa que esse ritmo passa a viver dentro dela. Não precisamos dizer que já são seis horas e é hora do banho. Se o banho sempre estiver depois da hora de guardar os brinquedos e antes do jantar, por exemplo, isso se tornará natural e ela fará com tranquilidade.

Algumas crianças que têm medo de dormir sozinhas e sempre acabam dormindo na cama dos pais. Para ajudá-la, podemos estipular um horário para dormir e repeti-lo diariamente, criar um ritual que aconteça todos os dias com pouquíssimas variações. Essa repetição vai trazer segurança. No começo, dará trabalho mas depois de um tempo, se mantivermos esse ritmo, a criança vai se adaptar e se acostumar.

O importante é termos em mente que no nosso entorno existe um ritmo acontecendo e trazer isso para a vida das crianças é fundamental.