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Imagine a cena:

Uma criança se debatendo no chão, chutando o ar, chorando e gritando sem parar. O motivo para tanto desespero foi um NÃO, sonoro e bem claro, que ouviu da mãe. Quem tem filho pequeno, é certo, já vivenciou isso. Para famílias que têm crianças entre os dois anos e três anos de idade isso pode estar se tornando uma rotina.

– O que está havendo com meu pequeno anjinho?

– De uma hora pra outra deu pra ficar “cheio de opinião”, birrento, até agressivo.

– Será que ele tem algum problema de personalidade?

Questionamentos como esses sempre surgem em rodas de conversa, no consultório, nas redes sociais. Os pequenos chegaram a uma fase conhecida como “Terrible ” ou os terríveis dois anos. Mas tudo isso faz parte da idade e é importantíssimo para o seu desenvolvimento. A criança está aprendendo a se colocar no mundo e a vivenciar novas experiências. Quando temos esse olhar e entendemos esse processo, passamos a ver que os terríveis dois anos, não são tão terríveis assim. Passamos a entender que esta criança não é agressiva e não está tendo esses comportamentos à toa. Ela está passando por um processo interno necessário para o seu crescimento.

Entre os 2 anos e meio e 3 anos de idade, a criança já conquistou os elementos que permitiram o início da sua atuação no mundo. Já levantou a cabeça, se sentou, engatinhou. Ela aprendeu a ficar em pé, pode ir até as coisas que deseja, se movimenta sem tantas limitações. Paralelo a isso, a garganta fica livre, a laringe se liberta e vem a fala. Agora a criança se relaciona de forma oral e começa a trocar com o mundo, a se relacionar mais com as pessoas. Recebe e devolve, pede as coisas, fala o que quer, fala também o que não quer. Ela vai buscar o espaço dela e aí a fase da birra se instala. A criança passa a brigar pelo seu lugar.

Nessa fase, a criança permanece no envoltório da mãe, só que agora de uma forma diferente. Ela já identifica a mãe como outra pessoa. Ela passa a perceber o outro. Na Antroposofia, chamamos esse processo de a primeira manifestação do Eu! É quando a criança começa a falar “eu” pela primeira vez, utiliza a primeira pessoa, não mais a terceira (“eu quero” e não “Marina quer”).

Sendo assim, o desejo da criança aumenta, a vontade de ter e conseguir as coisas também se intensifica. Nesse momento, os pais têm uma tarefa fundamental: dar limites. Essa vontade precisa ser lapidada. Os pais têm a responsabilidade de dizer o que a criança pode ou não pode fazer. Para a criança, são muitas mudanças. Além dessa sensação interna de diferenciação com o mundo que a rodeia, de sentir os limites do seu próprio corpo, ela também passa a ouvir mais “nãos” dos adultos! É onde se identificam as birras, os momentos de maior irritabilidade, agressividade e choro intenso. O que devemos fazer é colocar estes limites e falar esses “nãos” a partir de um lugar de respeito, com um novo olhar, sem autoritarismos.

Muito mais do que receita pronta, gostaria de ajudar os pais a refletir sobre tudo isso. Quando a gente entende que é uma fase de desenvolvimento, nós vemos a possibilidade dar um passo atrás, manter a calma. Embora na Antroposofia exista o entendimento de que a criança já tenha estado outras vezes aqui na Terra, quando ela chega para uma nova jornada ela precisa ser atualizada. A criança precisa reaprender a viver nesse lugar, necessita se adaptar novamente a estar nesse mundo. Nós, como pais fomos escolhidos, por ela, pra fazer esse papel. Significa que vamos orientá-la, vamos falar que ela fez algo errado, vamos mudar a fisionomia. Precisamos mostrar que aquilo nos desagradou, que aquilo foi errado. No entanto, não devemos julgar.

Na hora de dar limites, os abraços são aliados perfeitos. Uma criança tão pequena precisa de limite físico. Ela está aprendendo a viver dentro do seu corpo, está entendendo os seus contornos. O abraço é uma forma de “juntar” esse “Eu” que chegou e se esparramou.

Outra atitude que ajuda no meio de um caos é pegar a criança pela mão, tirar da situação e levá-la pra dar uma volta. Se for preciso, dizer que não gostou do que ela fez. Isso areja, a ajuda a respirar. A criança não consegue enxergar um novo caminho sozinha, somos nós que precisamos mostrar. A partir do momento que temos esse olhar, muita coisa muda, conseguimos nos posicionar com maior segurança e assim, ela olha pra gente e entende que estamos aqui pra acolhê-la.