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A menininha de cinco anos chega ao consultório orgulhosa falando sobre sua conquista em se apresentar na ginástica artística, conta o que aconteceu nos últimos dias, escolhe um jogo e começa a brincar. Essa escolha nunca é aleatória. Ela sempre vai preferir um jogo que tenha relação com a queixa que traz. Os pequenos, assim como nós adultos, têm um “eu” curador que sabe o que é melhor pra eles. É como se na hora de escolher um jogo a criança ouvisse uma vozinha interna e a seguisse sem questionar. E é na brincadeira que muitas questões aparecem.

Depois da brincadeira, vem uma história e logo em seguida é hora pintar. Dessa e de outras formas lúdicas, conseguimos ouvir o que vive na criança, sem que ela precise contar em palavras.

Aí vem a pergunta: será que é hora de procurar uma terapia para meu filho? Será que essas reações estão mesmo de acordo, faço vista grossa ou preciso ter um olhar mais atento. É difícil mesmo distinguir entre os comportamentos que fazem parte da faixa etária e os que estão inadequados.

Além das palavras, é importante que os pais prestem atenção nas atitudes e comportamentos de seus filhos, eles são indicadores de que algo possa estar acontecendo.

Lembrando que existem fases em que naturalmente as crianças ficam mais difíceis, testam mais, podem sentir mais medo ou decidem contestar tudo (entre os dois e três anos, aos seis, aos nove anos de idade que detalharei nos próximos textos). Essas reações são normais e vão surgir em maior ou menor intensidade, dependendo de cada criança.

O que vale ficar atento são características que fogem um pouco do que é considerado padrão:

  • Agressividade incomum ou muito choro. Uma criança super tranquila e que, de repente, começa a bater nos amigos ou outra criança que tem um comportamento explosivo como regra para suas relações e que briga toda semana com os colegas da escola.
  • Tristeza ou falta de interesse no que está acontecendo ao redor.
  • Baixa autoestima. Uma criança que não se vê capaz de fazer alguma coisa, de subir em algum lugar, de fazer a lição. Não confia em si mesma.
  • Medos irracionais e extremos tão fortes que impedem a criança de agir. Por exemplo, uma criança lá pelos seus 8 anos com medo absurdo de ficar sozinha no quarto; que tenha medo de ser abandonada, fica vigiando os pais o tempo todo para que não se afastem; que no mercado fique grudada com medo de se perder. Aqui vale lembrar que perto dos seis anos e, às vezes, aos nove também, a criança sente mais medo, medo de ficar só, de bruxas. Isso deve ser levado em conta e, em todos os casos, a criança deve ser acolhida e nunca forçada a vencer o medo a todo custo.
  • Problemas de concentração.
  • Timidez ou introspecção que atrapalham no seu desenvolvimento social.
  • Regressão ou comportamentos imaturos. É sabido que quando um bebezinho está a caminho, o irmão mais velho pode regredir um pouco em seu comportamento, voltar a fazer xixi na cama é um exemplo clássico. Mas não se trata de situações assim. Os casos que precisam ser investigados são diferentes, como por exemplo crianças de 10 anos que ainda fazem xixi na cama ou meninos e meninas com seis ou sete anos com comportamento e características equivalentes a uma criança de dois ou três anos, como fala ou desenvolvimento motor.

            Em momentos de crises, os pais devem ajudar seus filhos, mostrar a eles que não estão sozinhos. Para isso, é importante escutar sem interrupções a fala da criança, deixar que conte tudo o que sente em relação àquilo que estão vivendo, explicar que não deve ter vergonha de determinados sentimentos, como o medo, por exemplo. E acima de tudo não julgar o pequeno. Estas características, entre outras, podem aparecer em qualquer criança e serem normais. O importante é não tirar conclusões precipitadas, mas sim observar se persistem e por quanto tempo.

            Em muitos casos a ajuda de um profissional se faz mesmo necessária. O Psicólogo Infantil é a pessoa que vai proporcionar à criança um ambiente de confiança, caloroso e acolhedor para que ela possa se sentir à vontade para identificar seus sentimentos, preocupações e problemas que estão ocasionando determinados tipos de comportamentos ou sensações.

Isso pode ser feito de diversas maneiras, dependendo da linha terapêutica que o Psicólogo seguir. Tudo isso respeitando cada fase da criança, compreendendo que algumas vezes melhorar não é fácil, leva um certo tempo (embora muitas crianças sejam mais flexíveis a estas mudanças) e requer o envolvimento de todos que estão a sua volta, principalmente, família e escola.

            Com a criança nós sempre damos um passo pra trás e vemos o todo. Ela pode estar espelhando, refletindo coisas que fazem parte da vida dela em casa, com amigos, com os colegas. Às vezes, os pais estão passando por uma fase de muita briga, a um passo de uma separação, mas nunca disseram isso abertamente para a criança. Não importa, a criança sente e acaba tendo alguns comportamentos que refletem esse desacordo, essa desarmonia que ela está vivendo em casa.

O essencial de tudo isso é acolher e respeitar o momento ou a dificuldade desta criança e desta família. Respeitar que esta criança não é um adulto em miniatura e, sim um ser em desenvolvimento e na fase mais importante de toda a sua vida!