brincadeira 1

Há tempo queria escrever um texto sobre esse tema. Com as férias a inspiração aumentou, o convívio com a criançada me fez observar todos os tipos de comportamento. As crianças que brincam muito na rua, as que preferem brincar mais dentro de casa, as que têm brincadeiras mais corporais, aquelas que se divertem fantasiando e as que não brincam. Não que não brinquem em absoluto. Elas se divertem, mas sempre usando uma tela pra isso, pode ser um tablet, o computador, o celular, o videogame, a TV. Esse distanciamento do brincar real não tem nada de inofensivo. Vamos pensar juntos?

A criança no primeiro setênio (do nascimento aos sete anos) é puro movimento. Ela reconhece o mundo em que vive enquanto corre, anda descalça, brinca no balanço, quando pula corda, sobe em árvore. Nesses momentos a semente da vontade se agiganta dentro da criança.

A vontade, de acordo com a Antroposofia, é uma força interna, inata, que só precisa ser lapidada. Essa vontade vive nas mãos e nas pernas que são os membors que permitem que a gente faça coisas, que nos colocam no mundo. Quando uma criança fica parada, sentada na frente de uma tela, só recebendo estímulos visuais e nada mais, ela não exercita essa vontade. Não usa a sua máquina (o corpo) da forma que a natureza previu. Isso faz a vontade atrofiar.

Mesmo os chamados vídeos educativos, esses pouco contribuem. É falso imaginar que é bom para um criança pequena, de um ou dois anos, aprender a contar até 10, aprender as cores em inglês ou qualquer outra coisa com a ajuda de um personagem virtual. Nos sete primeiros anos de vida, a criança aprende pela imitação. O que é melhor pra ela é ter o pai ou a mãe como modelos e não alguém que nem real é.

Olhando de um ponto de vista neurológico, é na infância que o ser humano mais produz conexões entre os neurônios, as chamadas sinapses. Uma das formas da criança fazer essas sinapses e aprender é se movimentar, sentir o limite no próprio corpo. Quando uma criança esbarra numa mesa, por exemplo, o cérebro fez uma sinapse. Quando rola no chão, faz outras. Com o passar do tempo, essas conexões em excesso vão diminuindo, permanecem apenas aquelas que foram mais utilizadas ao longo da infância e é isso que vai ficar na vida adulta. Se não se movimenta o suficiente, imagina o que acontece!

A brincadeira é fundamental para o desenvolvimento físico, cognitivo e social dos pequenos. Quando a criança chega ao mundo tudo é estranho pra ela. Ela precisa conhecê-lo, experienciá-lo. E é através da brincadeira que ela explora o meio em que vive, que aprende a compartilhar, a nomear as coisas, situações e a se relacionar com as pessoas ao seu redor.

“O brincar é como um rio que corre e nós adultos somos as margens, que

servem de sustento para que ele corra, é uma força da natureza, não podemos

ensinar nada para a água, ela corre por si.”

Maria Chantal Amarante – Professora Waldorf.

Do ponto de vista emocional e psíquico, uma criança que brinca livremente tem mais facilidade de lidar com as situações adversas e dificuldades. Habilidades como resolução de problemas e manejo de frustrações já foram exercitadas durante as brincadeiras sem nenhum esforço. O brincar livre, sem atividade dirigida, proporciona autonomia e estimula a criatividade. Por natureza, as crianças brincam daquilo que é necessário para sua fase atual. O papel do adulto é proporcionar apenas o ambiente saudável, contato com a natureza, poucos brinquedos cheios de estímulos, muito carinho e principalmente atenção. Mostrar interesse pelo que a criança está fazendo e dar importância àquilo. Para ela a brincadeira não é somente fantasia e imaginação, é pura realidade. Isso gera sentimento de pertencimento, fortalece a autoestima e a autoconfiança da criança.

Alguns pais têm a sensação de que a criança precisa se divertir o tempo todo, sem parar. Aqui vale lembrar um outro aspecto da brincadeira, o ritmo. O ritmo saudável; não só na brincadeira, mas na vida como um todo; é o que se assemelha ao da respiração, intercalando momentos de expiração (fora) e de inspiração (dentro). Depois de um período de brincadeira ao ar livre, correndo, pulando ela precisa ficar dentro de casa, brincando, quietinha. Muitas vezes a criança faz esse movimento sozinha, mas se não o fizer é só convidá-la para entrar e tomar um lanche, descansar um pouco, brincar de boneca, carrinhos, quebra-cabeça. É quando a criança está dentro que ela cria e elabora seu mundo interno. Momento de descansar e de fazer a digestão, digerir todos aqueles momentos vividos fora, construir os recursos internos.

A brincadeira é uma das bases fundamentais para que tenhamos um adulto fortalecido emocionalmente, com recursos internos para lidar com o cotidiano e com as frustrações. Um adulto criativo com histórias e belas recordações de infância.

Brincar faz a criança feliz!